Tentativas literárias abundantes

Primeiro texto retirado do Manhã Amarela ( meu blog moribundo).

Eu olhava fixamente para as linhas no piso do vagão, me perguntando o que seria. Ele me esperava na próxima estação, e eu tinha dormido pouco, ainda estava um pouco bêbada, e muito atrasada. O metrô parou, e enquanto caminhava devagar ao seu encontro eu olhava para todos os lados, olhava pra trás, pensando nas palavras ditas, recordando sensações fugidias em longas madrugadas distantes. Mas quando eu o vi – encostado numa mureta sorrindo pra mim – eu reconheci seus olhos, seu sorriso quieto, seu cabelo bagunçado, suas mãos.
Reconheci o abraço, e não me reconheci quando fiquei paralisada, braços pairando desajeitados enquanto ele me segurava sinceramente. Eu imaginava fechar os olhos, encontrar seus lábios e devagar ceder, sob o peso de todo o tempo que nos separava, me diluir em uma felicidade azul, como que distante.
Me sentia incrivelmente feliz e completamente impotente. Ele me fazia perguntas, tentava conversar, e eu continuava olhando pra baixo, enrolando meu cachecol na mão entre respostas monossilábicas e sem vida. Quando o metrô cheio parou em uma estação, ele colocou a mão nas minhas costas, eu vacilei ao seu toque, me movi milímetros em sua direção. Mas depois recuei, covarde. Ele era lindo, e me olhava com tanto carinho, com uma alegria e uma calma de quem sabe que está onde quer, e eu parecia uma criança, não conseguia fazer nada além de tentar me esconder.
Fui me agitando, tentando gestos e palavras que o afastassem da obviedade do meu medo, criando interesses em coisa nenhuma, oferecendo desculpas. Evitava a única coisa que era toda a razão daquele dia, toda a razão de meses, toda a razão que eu tinha. Ele foi devagar vencendo as barreiras, sua presença tão familiar, o sono que deixava tudo lento e suave, seus cabelos entre meus dedos trêmulos, o olhar persistente e claro.
Parecia pra mim que nem mesmo a realidade de um beijo, mesmo perfeito, podia ser melhor do que aquela sensação que me preenchia e transbordava, a esperança mais sincera de um amor profundo. Quando o senti sua boca, sua língua, só pude pensar na falta que me fazia.
Agora eu sentava sozinha esperando o tempo passar, imaginando se eu jamais teria tanta paciência. Aquela melancolia constante, sua lembrança que invadia cada pensamento que eu tinha, os meses que relutavam em passar. Eu me deitava a noite e tentava me envolver nos resquícios da sua presença na minha vida, recria-lo para o meu sono solitários. Mas os cobertores me sufocavam, o vento me endurecia e os sons da madrugava figuravam nos meus sonhos como presságio das possibilidades que arregalavam meus olhos no escuros e me faziam chorar com abandono.
A cada ligação eu repetia que sentia sua falta, eu falava do amor, eu tentava encenar uma esperança de que poderia ser fácil, de que havia opções. E de manhã, assim que eu acordava, eu me virava e fechava os olhos de novo, impregnada com a manhã quente, o sol de quase meio dia, e pensava naquela semana, nas minhas mãos em seus cabelos, no seu sorriso, nos seus olhos sinceros, nos seus dedos tocando as cordas do violão, no meu nariz encostado no dele, na felicidade que envolvia cada milímetro que ocupávamos.
Ele era tudo o que eu queria. Era meu. Meu sonho. Meu primeiro amor. Minha loucura.
E apesar da total descrença (até da minha) já haviam se acumulado meses e meses de fortunas e infortúnios. Era mesmo comum, tão comum que chegava a ser proverbial: Sempre que tudo ia muito bem acontecia de repente um terremoto emocional e inexplicável, e algo de uma sorte grandiosa sempre se esgueirava entre as lágrimas mais irremediáveis, e eu já não podia deixar de viver por ele. Cada segundo, cada palavra. Tudo o que eu faria e tudo o que eu seria encontrava seu propósito caótico e vermelho, que cheirava a saliva, suor, velas queimando e resquícios dos nossos perfumes preferidos. Indiferente ao tempo que passava, essa noite poderia ser qualquer outra entre as que já se sucedem a meses e provavelmente continuarão ocupando-me. Sua ausência me ocupa.
Sua ausência me ocupa pela lembrança das sensações de nós dois, indissociáveis – manhãs, tardes e noites quentes, macias e lentas – todo ele bem de perto, a prova que era real, como numa série de fotografia intimas desfilando atrás dos meu olhos, e ficando cada vez mais sépia. Nos primeiros dias de separação eu podia sentir seu cheiro, latente em meus lençóis, pressionando minhas terminações nervosas e simulando sua presença. Mas lençóis têm logo que ser trocados, e também essa felicidade precisava dele para reciclar-se.
Eu que sempre tenho sono, mas cada vez que eu engajo num monólogo com as linhas telefônicas e o conforto de sua voz me é negado, não posso dormir. O desespero é afinal alguma espécie de alento, ainda que por sua constância, e eu nem posso mais dizer que não agüento – tanto eu preciso ser lembrada do amor – mesmo através da sucessão de avanços e recuos de minhas lágrimas, de meus medos, das minhas crises de identidade. Tenho muito mais receio dos acidentes de sabedoria em que uma racionalidade inédita me permite domar escândalos e instituir paz. Só os aceito pela necessidade de evitar que meu desespero o sufoque e o afaste.
Porque eu decidi guardar minhas lágrimas, pois elas são antes de tudo negação, e eu não tenho mais desejo algum de negar. Quero antes me despir e estar em flor, em pelo, vulnerável a toda brisa, e sempre sorridente – afinal esse amor antes de tudo é meu, e se hoje eu tenho minha sina marcada na pele foi porque assim quis. Guardarei minhas lágrimas pra quando o escuro tomar minhas entranhas e meus sonhos, porque enquanto eu tiver motivos não preciso chorar. Chorarei quando estiver desprovida dele e de mim.

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